Estava tão confortável naquela cama, que tudo o que conseguia fazer era me espreguiçar e pensar em virar para o outro lado, de modo a continuar dormindo, enquanto o sol invadia meu
quarto, em rajadas tímidas de luz, através de frestas que minha cortina
produzia ao se balançar com as primeiras brisas da manhã.
Na parede de frente a minha cama, que ficava centrada no quarto, com a cabeceira para uma das paredes, havia um enorme quadro pintado com a minha imagem de quando tinha 15 anos de idade.
Naquela imagem, eu estava com o corpo levemente virado para a esquerda, com um fundo acinzentado sobre uma massa disforme de verde, como se estivesse em meio a uma neblina sobre algum tipo de colina ou campo.
Usava um chapéu preto com um terno de mesma cor. Minha camisa era branca, simples, mas que se fazia destacada pelo fato de ser um tom de vida em meio aos tons escuros e tristes que o quadro abrigava.
Em uma das mãos estava uma bengala e quanto à outra mão, esta se encontrava abrigada em um dos bolsos da calça que era de cor preta. Apesar de escura era muito vívida toda aquela pintura que parecia ter surgido como fruto de um deja vu.
Enquanto analisava inconscientemente o quadro, levantava-me lentamente de minha cama para que pudesse arrumar-me e descer até a mesa e tomar um bom café da manhã junto de minha família.
Do lado direito de minha cama havia um criado mudo e minhas roupas estavam dobradas da maneira que havia deixado na noite anterior.
Enquanto me trocava algo despertou minha fome, algo que me dava impressão de que há tempos não sentia.
_ Ah! Cheirinho de café fresco!_ disse em voz baixa, já desejando estar á mesa.
Estava querendo muito descer e comer aquilo com meus pais, sentado naquela mesa grande e farta de quitutes que apenas minha mãe fazia.
Em minha casa o que não faltava era comida, por sorte, pois nem sempre tivemos condições financeiras muito boas. Tive muitas vezes, quando criança, que usar roupas de meu irmão mais velho, nem sempre em um bom estado, isso sem falar das vezes que não tínhamos nem o que comer.
Mas isso é passado, agora deixe-me voltar ao presente.
Já vestido, agora caminhava ao banheiro que ficava em meu quarto, para fazer minha higiene e finalmente descer até o café da manhã.
Não demorei mais que cinco minutos para sair do banheiro.
Abri a porta de meu quarto e encontrei um bilhete pendurado à maçaneta do lado de fora. Nele havia a seguinte inscrição:
“Lhe encontro no campo verde, estarei de preto e com uma bengala na mão.”
Não havia assinatura, apenas a tal descrição, que era como aquela da pintura que tinha na parede do meu quarto.
Estava tonto ainda de sono, então resolvi reler aquele bilhete, mas dessa vez sentado e paciente em minha cama, buscando me lembrar se havia marcado algum encontro em algum lugar semelhante ao da pintura, que ainda me dava sensação de deja vu.
Não sabia de quem era a letra, ninguém de minha família tinha a escrita parecida com aquela. A letra era bela, redonda e bem desenhada, meu pai não havia estudado e muito menos minha mãe, suas letras eram garranchos perto daquela e a minha, bem, eu me lembraria se tivesse escrito algo, mas também, não teria motivo para escrever aquilo a mim mesmo, não é?
O tempo que passei refletindo, foi o tempo de voltar para minha cama, me sentar, e aquele límpido céu começar a escurecer e relampejar em prenúncios de uma tempestade que estava por vir.
_ Como pode tão rápido o tempo mudar?_ Esbravejei a mim mesmo como forma de aliviar a tensão do fato de não me lembrar de tal encontro.
Então, ainda deitado olhei para a janela e ao ver a chuva, senti como se algo esvaecesse de meu corpo e me deixasse vulnerável para o que quer que fosse.
Deitei-me de costas na cama como forma de relaxar os músculos e pensar melhor em quem me escreveu aquilo.
_ Tudo bem, é somente uma carta, mas por que não me lembro de ter marcado de encontrar com alguém neste lugar?_ Tentava pensar_ E do mais, que lugar é esse?
Sabia que podia descer e perguntar a algum de meus pais sobre isso, e foi justamente o que resolvi fazer após desistir de tentar lembrar quem me deixaria aquilo escrito em minha porta.
Levantei, e ao dar o primeiro passo senti um aperto em meu peito, meu coração começou a acelerar. É difícil descrever a sensação que senti. Foi como se tivesse tido um pressentimento de que deveria sair depressa daquele quarto.
Ao olhar para o lado vi que havia deixado o bilhete sobre a cama, voltei e o peguei. Girei meu corpo para a porta e então vi o quadro, me aproximei pela última vez, apenas para ver se conhecia o lugar, mas minha resposta foi negativa, não sabia onde havia sido pintado aquilo.
Assim sendo, no ato de começar a sair da frente do quadro, o menino ali pintado mexeu seus olhos em minha direção e me disse:
_Adrian, acorde agora e vá à luta!_ Disse ela em tom de ordem.
Não pude compreender o acontecido, mas também não quis compreendê-lo, quis apenas fugir daquele lugar, e o mais rápido possível.
Saí daquele antro de loucura que estava virando o quarto, e então já não estava mais em minha casa, havia voltado para a pensão em que adormecerá na última noite quando havia me perdido de meus companheiros de guerra.
Talvez fosse isso, a guerra! Só podia ser a guerra o motivo de minha loucura.
Minhas mãos suavam, e por mais que me dissesse que devia me acalmar não conseguia.
Virei minha cabeça para cima, ainda sentado, encostando-a na parede de modos a tentar relaxar e então avistei o numero da porta de meu quarto:
_ Quarto treze... _ pensava com um sorriso no rosto diante daquela ironia _ Será que não poderia ter escolhido algum outro quarto?_ pensei comigo, brincando com a situação.
Mas parecia que como sempre eu estava sozinho, mais uma vez sozinho.