10/10/2011

TEXTO QUE EU GOSTARIA DE TER ESCRITO

(Douglas Adams, introdução do livro Guia do Mochileiro das Galáxias)

Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da borda ocidental desta galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.

Girando em torno deste sol, a uma distancia de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado, absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande idéia.

Este planeta tem – ou melhor tinha – o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel com números impressos, o que é curioso já que no geral não eram tais pedaços que de papel que se sentiam infelizes.

E assim o problema caminhava sem solução. Muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.

Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das arvores. Alguns diziam que até mesmo subir nas arvores tinha sido uma péssima idéia, e que ninguém jamais deveria te saído do mar.

E então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha em uma pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, iria funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.

Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar a sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a idéia perdeu-se para todo o sempre.

Esta não é a história dessa garota.

É a história daquela catástrofe terrível e idiota, e de algumas de suas conseqüências.

É também a história de um livro chamado “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, um livro que não é da Terra, jamais foi publicado na Terra e, até o dia em que ocorreu a terrível catástrofe, nenhum terráqueo jamais tinha visto ou sequer ouvido falar dele.

Apesar disso é um livro realmente extraordinário.

Na verdade, foi o mais extraordinário dos livros já publicados pelas grandes editoras de Ursa Menor, editora a qual nenhum terráqueo jamais ouvira falar.

O livro é não apenas uma obra extraordinária, como também um tremendo best-seller, mais popular que a “Enciclopédia Celestial do Lar”, mais vendido do que “Mais Ciquenta e Três Coisas para se Fazer em Gravidade Zero”, e mais polêmico que a colossal trilogia filosófica de Oolon Colluphid, “Onde Deus Errou”, “Mais Alguns Grandes Erros de Deus” e “Quem É Esse tal de Deus Afinal?”.

Em muitas das civilizações mais tranqüilas da borda oriental da galáxia, “O Guia do Mochileiro das Galáxias” já substituiu a grande “Enciclopédia Galáctica” como repositório padrão de todo o conhecimento e sabedoria, pois ainda que contenha muitas omissões e textos apócrifos, ou pelo menos terrivelmente incorretos, ele é superior à obra mais antiga e mais prosaica em dois aspectos importantes.

Em primeiro lugar, é ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz na capa, em letras garrafais e amigáveis, a frase “NÃO ENTRE EM PANICO”.

Mas a história daquela quinta feira terrível e idiota, a história de suas extraordinárias conseqüências, a história das interligações inextricáveis entre essas conseqüências e este livro extraordinário, tudo isso teve um começo muito simples.

Começou com uma casa.

18/09/2011

Happy

_ Hei, Láza, me responde aí. Você faria, ou não faria sexo com uma extraterrestre? _ pergunto tentando quebrar a monotonia de mais uma noite chata de trabalho.

Lazaroni, ou Láza, como eu costumo chamá-lo, apenas me olha com seu rosto fechado e sisudo de sempre.

De qualquer forma, eu não esperava outra reação dele.

_ Você sabe que não entender piadas é sinal de velhice, não sabe? _ digo com um sorriso largo na cara, apenas para provocá-lo, pois sabia que ele não encarara muito bem os 40 anos recém ganhos da fada da idade.

_ Happy, faz o seguinte, se concentre no seu trabalho! _ responde ele rispidamente para mim.

_ Ok, Ok._ digo sorrindo para ele, enquanto volto minha atenção ao tráfego.

O que fazíamos aqui, geralmente, era ficar dentro da nossa viatura (acredite, nós somos policiais e concordo plenamente contigo, não se fazem mais policiais como antigamente, hahaha) em uma avenida próxima à faculdade local, até que o movimento começasse a aumentar que era quando o nosso trabalho realmente começava.

Nossa “guarda” aqui era devido, em grande parte, à existência de barzinhos na proximidade da universidade. Bem, todo mundo sabe quem são os maiores concorrentes das universidades, não sabe?

Pois bem, eu e o Láza, fomos designados a fazer a “blitz” hoje, plena sexta feira, apenas para pegarmos ou menores de idade dirigindo sem habilitação, ou motoristas embriagados ao volante.

Agora eram dez horas da noite e o movimento ainda não estava em seu ápice, como viria a estar daqui à meia hora, então continuaríamos no carro por mais meia hora para finalmente termos um pouco de ação.

Para ser sincero, eu estou brincando, não teríamos ação nenhuma, teríamos sim era mais uma hora de chatice. Ficaríamos em pé escorados no carro, pararíamos uma ou outra pessoa e pediríamos para ver a carteira de habilitação.

Caso houvesse indícios de que o motorista tivesse bebido, pediríamos para fazer o teste do bafômetro. E ainda, mas não menos divertido, ouviríamos muitas reclamações por estarmos apenas cumprindo com o nosso trabalho.

Somente após tudo isso, poderíamos ir beber uma cerveja sem estar em serviço e tranqüilo de toda essa molecada chata de universidade.

2 minutos e 3 bocejos depois.

_ Sabe Happy, acredito que sim... _ diz Láza de forma séria, com sua voz baixa, mas confiante, apesar de sua pausa prolongada ao final da sentença, não dando muita ênfase se tinha acabado de afirmar algo ou se iria continuar com a afirmação acrescentando algo a mais.

_ Desculpa Láza, mas do que você está falando? _ respondo com o mesmo sorriso largo de antes, como se não tivesse entendendo do que se trata aquele “acredito que sim”, quando na verdade já sabia o que viria por aí.

Láza respira fundo, como se não devesse dar prosseguimento nessa conversa, mas continua a afirmação inacabada de antes.

_ Eu faria sexo com uma extraterrestre._ responde ele olhando para mim com cara de mal, como se dissesse “se fizer qualquer gracinha com o que eu disse morre.”.

É uma pena que o meu sentimento de medo não seja tão forte quanto a velocidade de minha língua.

_ Cara, você é nojento! _ digo rindo com as duas mãos no rosto, de cabeça baixa, para não rir diretamente na cara do Láza.

“Chamando oficial Barros e oficial Lazaroni.”

Ao ouvir o rádio nos chamando contenho meu riso e o atendo.

_ Oficial Barros, na escuta. _ a voz não sai extamente tão séria quanto desejava.

“Houve um assassinato no Circo Monte Videl e vocês foram designados para ir até lá investigar. Estaremos mandando reforços caso precisem.”

Então apenas olho para Lazaroni e seu olhar, que já era de bravo antes da minha brincadeira, não melhora em nada com a missão que acabamos de receber.

_ Eu sei. Ou aquilo vai estar muito vazio e só veremos corpos, ou estará uma completa anarquia de gente correndo da guerra. De qualquer modo você sabe que temos de ir. _ diz ele com seu tom sério e preocupado, sabendo de minha apreensão em ir até lá.

Já que estávamos sentados dentro do carro, tudo que tive que fazer foi girar a chave na ignição e dar a partida no carro.

Parece que daqui até o circo não haveria mais espaço nem para minhas piadas, nem para Happy. A partir de agora teria que ser oficial Barros no controle, sem gracinhas.

Se bem que preferiria continuar por aqui e lidar com esses jovens...

10/09/2011

Folhas ao caos

Inútil!

Uma folha branca sempre será uma folha branca.

Pode ser que no decorrer do tempo novos tons venham a esconder o vazio alí contido. Um sorriso amarelo para falta de conteúdo. Um tom avermelhado para vergonhas. Mas o fato é que a essência de uma folha branca, sempre será o branco.

OK, até aceito que haja exceções. Até aceito que haja aquelas folhas que tenham se dedicado a esconder o seu vazio por detrás de conteúdo, mas a que custo?

Seria menos branca uma folha inteira dedicada a conteúdo?

“Eu sou útil!” _ Diz a folha de conteúdo.

“Que inútil!” _ Eu respondo àquela folha.

Alguns poucos apenas. Só entre o caos.

Por acaso o caos tem ouvidos? É?! Mesmo?! Sei...

O caos apenas se diverte nele mesmo, achando que tudo está na mais perfeita ordem, afinal, aquela é a ordem inicial dele mesmo. Para eles, os tons que darão à suas folhas brancas, pouco importa, desde que se entorpeçam com um chá de foda-se, tudo certo.

Eu não os culpo, nem os que se escondem atrás de conteúdo, nem aqueles que vivem em meio ao caos, afinal, nunca foi dito com todas as letras a utilidade de uma folha.

“Talvez uma folha não seja branca de fato. Talvez sejamos apenas míopes demais para ver as coisas. Massa, não?!” _ responde algum metido a sabichão dentro de uma sala de aula, com sua mão ainda levantada para se fazer notar.

De fato somos míopes de mais para ver qualquer coisa, e igualmente de fato, talvez não seja branca uma folha. Mas “talvez” está longe de ser “certeza”.

Uma folha branca sempre será uma folha branca largada a improvisos, a interpretações próprias ou de outras, no decorrer de uma caneta no tempo.

Então, como preenche-la?

Que inútil!

03/08/2011

Ao encontro

O sol aos poucos ia sumindo no horizonte, revelando um alaranjado vibrante que logo perderia sua força dando lugar a um escuro céu, repleto de estrelas que formaria um aglomerado de pequenos pontos iluminados, dando uma beleza especial ao caminho que Matheus trilharia até seu destino.

Em uma de suas mãos, uma rosa era segura de forma cuidadosa para que não se machucasse conforme Matheus seguia seu caminho. Já sua outra mão, que repousava no bolso de sua calça, certificava que ainda se encontrava ali a carta que escrevera com carinho àquela que deveria ter ouvido tudo bem antes, ao invés de somente ler sem ter a idéia da dificuldade que era dizer tudo aquilo pessoalmente, como bem sabia o rapaz.

A paisagem do caminho se fazia de fileiras de pedras em formas retangulares, de modo bastante rústico, perfilando uma via principal e a seguindo até que ela se perdesse de vista. Entre tais fileiras, frias vielas estreitas se formavam, e por elas Matheus passava de forma lenta, admirando as flores que ali repousavam e recebiam os últimos raios de sol do dia.

Mesmo sabendo que um dia tais flores morreriam, e mais rápido do que se estivessem com suas raízes fixadas a um chão que lhe servisse de repouso, era a possibilidade de “vida entre o não vivo”, como ele pensava naquele momento, o que encantava os olhos daquele rapaz.

Assim, enquanto andava e admirava a beleza do céu e das flores que se iam, o trajeto diminuía e em breve o encontro com quem o esperava repousando em uma dessas pedras poderia por fim se concretizar.

Suas mãos estavam trêmulas, mas também pudera, fazia alguns meses que Matheus não tivera coragem de ir ao encontro daquela que tanto queria voltar a rever, e não sabia ainda como reagir ao encontrá-la, ainda que tivesse ensaiado mentalmente algumas falas e assuntos para conversar.

Ao atingir a base de um íngreme descampado, em seu topo, lá estava ela a sua espera, sentada em uma dessas pedras retangulares, sendo iluminada somente pela luz da lua, o que lhe concedia um ar quase sobrenatural aos olhos de Matheus, que estavam cegos pelo presente que aquela noite estava lhe oferecendo.

Ao se aproximar, gentilmente, Matheus retirava seu chapéu trazendo-o até seu peito e em meio a um sorriso, com a outra mão estendida, presenteava a jovem com a rosa que trouxera por todo o caminho.

Ela graciosamente retribuía o sorriso com outro, o que a tornava ainda mais linda aos olhos de Matheus, que não conseguia pensar em mais nada a não ser no quanto estava feliz por ter tomado a decisão de ir vê-la.

Então, aceitando a rosa, com um movimento delicado ela permitiu que ele se sentasse ao seu lado, e assim, quietos em uma linda noite escura, com apenas as estrelas brilhando altivamente, eles permaneceram.

Logo Matheus que tanto tinha a dizer, emudecera, se bem que nada mais era preciso ser dito. Os olhos da jovem brilhavam e não era somente o luar, disso o rapaz tinha certeza, afinal os seus ele sabia que brilhavam do mesmo jeito, sendo que dessa forma palavras não mais seriam necessárias... muito menos cartas.