18/09/2011

Happy

_ Hei, Láza, me responde aí. Você faria, ou não faria sexo com uma extraterrestre? _ pergunto tentando quebrar a monotonia de mais uma noite chata de trabalho.

Lazaroni, ou Láza, como eu costumo chamá-lo, apenas me olha com seu rosto fechado e sisudo de sempre.

De qualquer forma, eu não esperava outra reação dele.

_ Você sabe que não entender piadas é sinal de velhice, não sabe? _ digo com um sorriso largo na cara, apenas para provocá-lo, pois sabia que ele não encarara muito bem os 40 anos recém ganhos da fada da idade.

_ Happy, faz o seguinte, se concentre no seu trabalho! _ responde ele rispidamente para mim.

_ Ok, Ok._ digo sorrindo para ele, enquanto volto minha atenção ao tráfego.

O que fazíamos aqui, geralmente, era ficar dentro da nossa viatura (acredite, nós somos policiais e concordo plenamente contigo, não se fazem mais policiais como antigamente, hahaha) em uma avenida próxima à faculdade local, até que o movimento começasse a aumentar que era quando o nosso trabalho realmente começava.

Nossa “guarda” aqui era devido, em grande parte, à existência de barzinhos na proximidade da universidade. Bem, todo mundo sabe quem são os maiores concorrentes das universidades, não sabe?

Pois bem, eu e o Láza, fomos designados a fazer a “blitz” hoje, plena sexta feira, apenas para pegarmos ou menores de idade dirigindo sem habilitação, ou motoristas embriagados ao volante.

Agora eram dez horas da noite e o movimento ainda não estava em seu ápice, como viria a estar daqui à meia hora, então continuaríamos no carro por mais meia hora para finalmente termos um pouco de ação.

Para ser sincero, eu estou brincando, não teríamos ação nenhuma, teríamos sim era mais uma hora de chatice. Ficaríamos em pé escorados no carro, pararíamos uma ou outra pessoa e pediríamos para ver a carteira de habilitação.

Caso houvesse indícios de que o motorista tivesse bebido, pediríamos para fazer o teste do bafômetro. E ainda, mas não menos divertido, ouviríamos muitas reclamações por estarmos apenas cumprindo com o nosso trabalho.

Somente após tudo isso, poderíamos ir beber uma cerveja sem estar em serviço e tranqüilo de toda essa molecada chata de universidade.

2 minutos e 3 bocejos depois.

_ Sabe Happy, acredito que sim... _ diz Láza de forma séria, com sua voz baixa, mas confiante, apesar de sua pausa prolongada ao final da sentença, não dando muita ênfase se tinha acabado de afirmar algo ou se iria continuar com a afirmação acrescentando algo a mais.

_ Desculpa Láza, mas do que você está falando? _ respondo com o mesmo sorriso largo de antes, como se não tivesse entendendo do que se trata aquele “acredito que sim”, quando na verdade já sabia o que viria por aí.

Láza respira fundo, como se não devesse dar prosseguimento nessa conversa, mas continua a afirmação inacabada de antes.

_ Eu faria sexo com uma extraterrestre._ responde ele olhando para mim com cara de mal, como se dissesse “se fizer qualquer gracinha com o que eu disse morre.”.

É uma pena que o meu sentimento de medo não seja tão forte quanto a velocidade de minha língua.

_ Cara, você é nojento! _ digo rindo com as duas mãos no rosto, de cabeça baixa, para não rir diretamente na cara do Láza.

“Chamando oficial Barros e oficial Lazaroni.”

Ao ouvir o rádio nos chamando contenho meu riso e o atendo.

_ Oficial Barros, na escuta. _ a voz não sai extamente tão séria quanto desejava.

“Houve um assassinato no Circo Monte Videl e vocês foram designados para ir até lá investigar. Estaremos mandando reforços caso precisem.”

Então apenas olho para Lazaroni e seu olhar, que já era de bravo antes da minha brincadeira, não melhora em nada com a missão que acabamos de receber.

_ Eu sei. Ou aquilo vai estar muito vazio e só veremos corpos, ou estará uma completa anarquia de gente correndo da guerra. De qualquer modo você sabe que temos de ir. _ diz ele com seu tom sério e preocupado, sabendo de minha apreensão em ir até lá.

Já que estávamos sentados dentro do carro, tudo que tive que fazer foi girar a chave na ignição e dar a partida no carro.

Parece que daqui até o circo não haveria mais espaço nem para minhas piadas, nem para Happy. A partir de agora teria que ser oficial Barros no controle, sem gracinhas.

Se bem que preferiria continuar por aqui e lidar com esses jovens...

10/09/2011

Folhas ao caos

Inútil!

Uma folha branca sempre será uma folha branca.

Pode ser que no decorrer do tempo novos tons venham a esconder o vazio alí contido. Um sorriso amarelo para falta de conteúdo. Um tom avermelhado para vergonhas. Mas o fato é que a essência de uma folha branca, sempre será o branco.

OK, até aceito que haja exceções. Até aceito que haja aquelas folhas que tenham se dedicado a esconder o seu vazio por detrás de conteúdo, mas a que custo?

Seria menos branca uma folha inteira dedicada a conteúdo?

“Eu sou útil!” _ Diz a folha de conteúdo.

“Que inútil!” _ Eu respondo àquela folha.

Alguns poucos apenas. Só entre o caos.

Por acaso o caos tem ouvidos? É?! Mesmo?! Sei...

O caos apenas se diverte nele mesmo, achando que tudo está na mais perfeita ordem, afinal, aquela é a ordem inicial dele mesmo. Para eles, os tons que darão à suas folhas brancas, pouco importa, desde que se entorpeçam com um chá de foda-se, tudo certo.

Eu não os culpo, nem os que se escondem atrás de conteúdo, nem aqueles que vivem em meio ao caos, afinal, nunca foi dito com todas as letras a utilidade de uma folha.

“Talvez uma folha não seja branca de fato. Talvez sejamos apenas míopes demais para ver as coisas. Massa, não?!” _ responde algum metido a sabichão dentro de uma sala de aula, com sua mão ainda levantada para se fazer notar.

De fato somos míopes de mais para ver qualquer coisa, e igualmente de fato, talvez não seja branca uma folha. Mas “talvez” está longe de ser “certeza”.

Uma folha branca sempre será uma folha branca largada a improvisos, a interpretações próprias ou de outras, no decorrer de uma caneta no tempo.

Então, como preenche-la?

Que inútil!