11/08/2013

Carolina no fim do mundo.

O mundo desmoronava, mas Carolina não se preocupava do alto de seu prédio onde tudo podia ver. Chovia sangue, no entanto, Carolina se divertia nas poças, pulando com ambos os pés dentro de uma aqui, outra ali, e assim cantava e ria para o mundo a acabar.

Ouvia gritos de socorro, mas isso não a preocupava mais. Quando havia ainda tempo de sobra, ela tinha feito tudo o que estava a seu alcance. Agora, com segundos contados para o fim do mundo, ela sabia que o que lhe restava era somente a despedida.

Quando então, um barulho estrondoso se fez ouvir de algum lugar próximo a ela. Isso a deixou assustada por um instante ínfimo, ainda mais quando o chão sob os seus pés vibraram, a fazendo sentir como se houvesse um amanhã. Não haveria.

Como ela estava no ponto mais alto da cidade, não ligou por muito tempo, apenas continuou a admirar todas aquelas chamas, toda aquela cor vermelha, e o som ambiente que antes era de carros e buzinas, e que logo havia dado lugar a gritos e barulhos de explosão, de potência ensurdecedora, gradativamente, foram diminuindo conforme o fim se colocava mais próximo.

Ao seu lado, uma sombra surgia, e dela uma voz masculina se fazia ouvir:

_ O que faz aqui em cima sozinha, toda molhada com essa chuva? _ dizia em tom de preocupação aquela voz.

_ Não é bonito quando o fim dá as caras? _ dizia Carolina em meio a um suspiro _ Quero dizer, quando realmente não há mais o que se fazer. Acho que só resta admirar, né? Lindo...

O homem parecia tentar entender, olhando para todos os lados e só vendo destruição. Então, caminhando até o lado da menina, que estava de olhos fechados, respirando fundo, como que realmente vivendo aquilo, ele se coloca sentado junto a ela procurando a beleza que a menina tentava lhe mostrar.

Não era a intenção dele de acabar com aquele momento que a menina vivenciava, então ficou em silêncio, decidido em esconder seu medo do futuro. A ele temia até olhar para baixo e se sentir tentado a pular, e o céu, bem, com todos aqueles chicotes de luz, e toda aquela vermelhidão a cair, não lhe era o local mais convidativo a estar olhando agora.

Ele se sentia desconfortável com tudo aquilo, o fim não era seu plano. Em sua fuga interior, nesse momento, ele pensava que se ele estivesse vivenciando realmente o fim, seria  melhor ter remarcado o dentista, afinal, seria péssimo a sua imagem se devido à sua ausência em um compromisso desses ligado à área de saúde, ele fosse barrado no portão devido a cárie.  Imagina o que diriam dele no céu? Seria vergonhoso.

Os dois permaneceram em silêncio ainda mais um tempo, até que a menina se levanta e caminha, em direção oposta ao local onde, sentada, vivia aquilo. O homem, ainda tentando se acalmar, a acompanha com o olhar e pergunta:

_ Para onde vai? Por acaso cansou da sua beleza? _ seu tom de voz soou meio irônico, mas a menina não ligou, e sem se virar a ele, lhe respondeu.

_ De modo algum. Só quero um novo ângulo.

_ Mas de que? _ o homem por mais que tentasse acompanhar o pensamento da menina, não o alcançava. O que lhe vinha à cabeça era “que porra essa menina tá falando?”.

Em resposta, um riso meigo escapa à menina, que soa abafado por um trovão, mas ela não liga pelo “timing” errado vindo do céu, e assim continua.

_ Fala aí, céu ou chão? _sua voz é extremamente amigável.

Sem entender, e sem paciência para aquela conversa sem sentido, ele responde:

_ Céu ou chão. _ sua voz sai em um tom monótono, como se não se importasse com aquela conversa.

A resposta gera um riso alto da menina, e dessa vez o céu não a interrompe. Ela ainda era jovem, possuía por volta de dezenove anos, e sua voz meiga fazia lembrar a de uma menina, e aquele riso, lhe servia como se ainda houvesse coisas que lhe poderia surpreender. Não havia mais tempo.

O barulho ambiente cada vez se colocava mais baixo, talvez por que o fim se aproximava ainda mais. Ambos sabiam. Tremores e rachaduras se faziam sentir, e ver, por entre as ruas da cidade. Veios de lava surgiam ao chão, concedendo do alto do prédio a visão de rios de luz de beleza única.

_ Sabe, talvez o céu nunca tenha tido tanta inveja da luz da terra. _dizia ela, em meio a um sorriso, perdida na visão que ia ao alcance do olhar. _ Mas quanto a minha pergunta, eu quis dizer que hoje temos o privilégio de morrer como quisermos... _ antes que completasse o pensamento, o homem lhe interrompe em um tom ansioso.

_ Como quisermos? Bem, que tal amanhã? Tenho dentista sabe.

Outro riso alto a menina deixa escapar. E então continua.

_ Eu quero dizer como algo grande ou pequeno.

_ O suficiente para permanecer vivo... essa opção, digo... acho que é a que melhor combina comigo. Qualquer outra não me faria muito bem.

_ Bobo. _ Ela parecia estar se divertindo com o nervosismo de seu amigo. _ Olha o chão. Daqui você pode ter o poder de moldar a realidade, apenas esticando uma mão e apagando uma visão, sendo grande num mundo pequeno. No entanto, se você olhar á grandeza do céu, será ele quem irá te moldar, e quem sabe até te apagar, diante de sua pequena existência diante de tudo, E então céu ou chão?

Ele passa a compreender o ponto de vista da menina, mas seu desejo é de não ter que escolher.

Um tremor, dessa vez muito forte sacode as estruturas do prédio. A menina vinha esperando por esse momento. Ela passa a cantar e girar olhando ao céu, de braços abertos, como que aceitando o infinito e a si mesma.

_ Sabe, eu não te conheço. Mal vi o seu rosto. Não sei seu nome. Mas acho que te amo. _ Diz a menina em tom amigável.

_ Claro, por que não. _ A vida havia fugido à voz do homem. Não havia esperança. Lágrimas saia de seus olhos, e de seu corpo apenas o tremor de medo, sentado à beira do prédio enxergando finalmente a beleza naquele chão luminoso.

_ Espero te ver numa próxima, só queria que soubesse que foi um prazer.

_ Bem, talvez tenha sido igualmente. _respondia ele se deixando levar, enquanto ambos focavam aquilo que escolhera para ser o modo de encarar o fim, ela o alto, ele o chão.