O mundo desmoronava, mas Carolina
não se preocupava do alto de seu prédio onde tudo podia ver. Chovia sangue, no
entanto, Carolina se divertia nas poças, pulando com ambos os pés dentro de uma
aqui, outra ali, e assim cantava e ria para o mundo a acabar.
Ouvia gritos de socorro, mas isso
não a preocupava mais. Quando havia ainda tempo de sobra, ela tinha feito tudo
o que estava a seu alcance. Agora, com segundos contados para o fim do mundo,
ela sabia que o que lhe restava era somente a despedida.
Quando então, um barulho
estrondoso se fez ouvir de algum lugar próximo a ela. Isso a deixou assustada
por um instante ínfimo, ainda mais quando o chão sob os seus pés vibraram, a
fazendo sentir como se houvesse um amanhã. Não haveria.
Como ela estava no ponto mais
alto da cidade, não ligou por muito tempo, apenas continuou a admirar todas
aquelas chamas, toda aquela cor vermelha, e o som ambiente que antes era de
carros e buzinas, e que logo havia dado lugar a gritos e barulhos de explosão,
de potência ensurdecedora, gradativamente, foram diminuindo conforme o fim se colocava
mais próximo.
Ao seu lado, uma sombra surgia, e
dela uma voz masculina se fazia ouvir:
_ O que faz aqui em cima sozinha,
toda molhada com essa chuva? _ dizia em tom de preocupação aquela voz.
_ Não é bonito quando o fim dá as
caras? _ dizia Carolina em meio a um suspiro _ Quero dizer, quando realmente não há mais o que
se fazer. Acho que só resta admirar, né? Lindo...
O homem parecia tentar entender,
olhando para todos os lados e só vendo destruição. Então, caminhando até o lado
da menina, que estava de olhos fechados, respirando fundo, como que realmente
vivendo aquilo, ele se coloca sentado junto a ela procurando a beleza que a
menina tentava lhe mostrar.
Não era a intenção dele de acabar
com aquele momento que a menina vivenciava, então ficou em silêncio, decidido
em esconder seu medo do futuro. A ele temia até olhar para baixo e se sentir
tentado a pular, e o céu, bem, com todos aqueles chicotes de luz, e toda aquela
vermelhidão a cair, não lhe era o local mais convidativo a estar olhando agora.
Ele se sentia desconfortável com
tudo aquilo, o fim não era seu plano. Em sua fuga interior, nesse momento, ele
pensava que se ele estivesse vivenciando realmente o fim, seria melhor ter remarcado o dentista, afinal, seria péssimo a sua imagem se devido à sua ausência em um
compromisso desses ligado à área de saúde, ele fosse barrado no portão devido a cárie. Imagina o que diriam dele no céu? Seria vergonhoso.
Os dois permaneceram em silêncio
ainda mais um tempo, até que a menina se levanta e caminha, em direção oposta
ao local onde, sentada, vivia aquilo. O homem, ainda tentando se acalmar, a
acompanha com o olhar e pergunta:
_ Para onde vai? Por acaso cansou
da sua beleza? _ seu tom de voz soou meio irônico, mas a menina não ligou, e
sem se virar a ele, lhe respondeu.
_ De modo algum. Só quero um novo
ângulo.
_ Mas de que? _ o homem por mais
que tentasse acompanhar o pensamento da menina, não o alcançava. O que lhe
vinha à cabeça era “que porra essa menina tá falando?”.
Em resposta, um riso meigo escapa
à menina, que soa abafado por um trovão, mas ela não liga pelo “timing” errado
vindo do céu, e assim continua.
_ Fala aí, céu ou chão? _sua voz
é extremamente amigável.
Sem entender, e sem paciência para
aquela conversa sem sentido, ele responde:
_ Céu ou chão. _ sua voz sai em
um tom monótono, como se não se importasse com aquela conversa.
A resposta gera um
riso alto da menina, e dessa vez o céu não a interrompe. Ela ainda era jovem,
possuía por volta de dezenove anos, e sua voz meiga fazia lembrar a de uma
menina, e aquele riso, lhe servia como se ainda houvesse coisas que lhe poderia
surpreender. Não havia mais tempo.
O barulho ambiente cada vez se
colocava mais baixo, talvez por que o fim se aproximava ainda mais. Ambos
sabiam. Tremores e rachaduras se faziam sentir, e ver, por entre as ruas da
cidade. Veios de lava surgiam ao chão, concedendo do alto do prédio a visão de
rios de luz de beleza única.
_ Sabe, talvez o céu nunca tenha
tido tanta inveja da luz da terra. _dizia ela, em meio a um sorriso, perdida na
visão que ia ao alcance do olhar. _ Mas quanto a minha pergunta, eu quis dizer
que hoje temos o privilégio de morrer como quisermos... _ antes que completasse
o pensamento, o homem lhe interrompe em um tom ansioso.
_ Como quisermos? Bem, que tal
amanhã? Tenho dentista sabe.
Outro riso alto a menina deixa
escapar. E então continua.
_ Eu quero dizer como algo grande
ou pequeno.
_ O suficiente para permanecer
vivo... essa opção, digo... acho que é a que melhor combina comigo. Qualquer
outra não me faria muito bem.
_ Bobo. _ Ela parecia estar se
divertindo com o nervosismo de seu amigo. _ Olha o chão. Daqui você pode ter
o poder de moldar a realidade, apenas esticando uma mão e apagando uma visão, sendo grande num mundo pequeno.
No entanto, se você olhar á grandeza do céu, será ele quem irá te moldar, e quem sabe até te
apagar, diante de sua pequena existência diante de tudo, E então céu ou chão?
Ele passa a compreender o ponto
de vista da menina, mas seu desejo é de não ter que escolher.
Um tremor, dessa vez muito forte
sacode as estruturas do prédio. A menina vinha esperando por esse momento. Ela
passa a cantar e girar olhando ao céu, de braços abertos, como que aceitando o
infinito e a si mesma.
_ Sabe, eu não te conheço. Mal vi o seu rosto. Não sei seu nome. Mas acho que te amo. _ Diz a menina em tom
amigável.
_ Claro, por que não. _ A vida
havia fugido à voz do homem. Não havia esperança. Lágrimas saia de seus olhos, e de
seu corpo apenas o tremor de medo, sentado à beira do prédio enxergando
finalmente a beleza naquele chão luminoso.
_ Espero te ver numa próxima, só
queria que soubesse que foi um prazer.
_ Bem, talvez tenha sido
igualmente. _respondia ele se deixando levar, enquanto ambos focavam aquilo que
escolhera para ser o modo de encarar o fim, ela o alto, ele o chão.
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