15/04/2015

Baltazar e Eu

O sol não se punha, e o dia não era bonito, mas como estava longe de ser feio, eu não ligava, e continuava sentado em meu banco, à beira do precipício, lendo histórias há muito tempo escritas por mim mesmo.
Eram histórias de outra vida, vivida por outros eu, em outros tempos. Eram histórias que às vezes me constrangia, às vezes me deixava feliz, às vezes me deixava com sensação de que nada acontecia, outras vezes traziam a sensação de que nada aconteceu.
É como li uma vez, em um lugar que estive numa outra vida, enquanto voltava de uma bebedeira com velhos amigos, e parava para urinar em um banheiro publico. As letras eram grandes e belas na porta de tal banheiro, e mesmo que não lembre o que elas diziam, era bonito, profundo, e tinha a ver com o que estava dizendo, pode acreditar.
Uma pena as histórias lidas por mim no topo do precipício, não acompanharem tal beleza e profundidade. Mas fazer o que, se nem todas as histórias vividas são tão belas quanto certas frases de portas de banheiro?
Mas mesmo assim eu continuava minhas leituras, afinal, solidão é muito boa para histórias ruins, talvez tão boas quanto veneno a um suicida, crianças a um pedófilo, ou café com leite.
E do mais, se acaso cansasse de ficar sozinho, eu voltava para casa, para ser recepcionado por meu cão chamado Baltazar. Apesar do contrário ser bem mais frequente.
Eu costumava ler ao longo do dia inteiro, quando ao longe, por entre as arvores e os arbustos, vinha Baltazar, em sua pelugem escura e seus passos lentos, cansados, mas que sempre chegavam onde queriam ir.
Já eu, me mexia o mínimo possível, que era para evitar a fadiga. Talvez por isso Baltazar e eu nos déssemos tão bem; dois lentos companheiros, em plena velhice, a curtir o nada.
Há uma beleza no nada, sabe? A beleza de que no nada há tudo a se fazer, e ver.
E assim por mil vidas ficamos, sem nos cansarmos das infinitas possibilidades a nossa frente, enquanto esperávamos sentados.
Mas sabe como é, a sorte nunca dura para sempre, e uma hora o vento dá um empurrãozinho e tudo a sua volta começa a andar, e você não pode ficar parado. Não senhor. Ou senhora. Sem preconceitos. Não podemos ficar parados quando tudo se movimenta.
Em rota de colisão a uma movimentada turba de elefantes, pelo menos dance um solitário cha cha cha, e alguns elefantes dançarão contigo.

E é sobre cha cha cha que eu pretendo falar daqui para frente. Mas pode ser que eu mude de ideia no meio do caminho, afinal, a vida é muito longa para se viver lendo em apenas um banco.

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