Em um dia ensolarado, nada como poder brincar num parque, se divertir e fazer novos amigos, pensava senhor Keane em relação a Darwin, que era apenas uma criança de sete anos começando a compreender o mundo.
Porém, em um dia ensolarado, nada como tomar algumas cervejas geladas ao abrigo do sol, rodeado de mulheres e com dinheiro para gastar à vontade, pensava Keane em relação a si mesmo.
Já o banco de madeira em que ambos se sentavam, enquanto viam crianças correrem de um lado para o outro, apenas gostaria de voltar a ser árvore e poder receber a fresca brisa das manhãs, tendo pássaros a construir seus ninhos durante a tarde e durante a noite poder ter de volta aquela proximidade da lua e das estrelas.
Mas claro que bancos de madeira não pensam, o que permitia a Keane e Darwin que se sentassem nele confortavelmente, lado a lado, sem se preocupar com os sentimentos, ou com a possibilidade daquele banco ter algum plano além de ficar pelo parque de bobeira naquela tarde.
Dessa forma, como os dois se encontravam sem maiores pesos na consciência, o que restava a eles era curtir o parque e todos os seus atrativos, que era exatamente o que nenhum deles fazia.
Darwin se encontrava lendo um livro, que Keane nem fizera questão de saber qual era, uma vez que estava, em suas palavras, “emputecido” com o garoto, afinal, não bastava ser alguém imaginado por uma criança de sete anos, tinha que ser por uma criança que gostava de livros, não bebia, não conhecia os prazeres femininos e que tinha um péssimo gosto para roupas.
Keane, não apenas tinha esse nome típico irlandês, mas era também ruivo, baixo e se encontrava vestido quase inteiramente de verde, de modo que dava graças a ninguém poder vê-lo, pois, se o fizessem, certamente o chamariam de lepreshaun.
O garoto, alheio ao sentimento de seu (não muito) amigo imaginário, entre uma folha e outra, olhava às outras crianças brincando e esboçava um olhar que beirava a complacência por estarem perdendo tempo correndo, enquanto o mundo precisava ser salvo de uma infinidade de problemas.
Keane, retrucando o olhar do menino, sem meias palavras, diz:
_ Porra, velho! Tá de sacanagem comigo, né? _ uma pausa fora dada em sua fala, por uma bufada, e assim continuava _ Na moral, depois desse olhar seu, eu só vejo duas soluções para você. Ou você cresce rápido e começa a me apresentar mulheres, me leva a bares, aprende algo sobre moda e me torna, de fato, seu único amigo, ou você aprende a ser uma criança como as outras, fazendo amigos e nunca mais lendo.
O menino não esboça se sentir ofendido com tal comentário, mas, ainda assim, em um tom pesaroso, dá continuidade a conversa com o pequeno homem de verde:
_ Mas senhor Keane, uma criança como todas as outras, mesmo? _ diz Darwin enquanto se vira para aquelas crianças correndo em sua brincadeira ilógica.
_ É claro! Olha só aquele cara ali. _ diz o homenzinho apontando a um hippie a andar na rua vendendo seus artesanatos, enquanto cantarolava uma musica da década de sessenta, sem que ninguém o note, e sem que ele se sinta incomodado com tal fato. _ Você quer mesmo ser como ele? Ele está pelo menos 50 anos atrasado no tempo!
Estar atrasado amedrontava Darwin, afinal, como ser bem sucedido dessa forma? Talvez ele precisasse se adaptar, afinal de contas, se o “saber” o tornasse diferente de todos, ninguém o seguiria em seus pensamentos diferentes, e se fosse assim o seu futuro, como obteria sucesso?
Assim, um tanto contrariado, o menino dá de ombros, esboça um sorriso, deixa seu livro no banco (que por sua vez não esboça qualquer reação, sendo compreendido pelo menino e por senhor keane como estando tudo certo, afinal, ninguém liga para o sentimento de bancos de parque, o que chatearia o banco, caso ele tivesse algum tipo de sentimento)(Ah! Mas esse não era o caso) e corre gritando em direção até onde as outras crianças estavam naquele momento; um grande monte de pedra.
_ Pega o gordo! _ exclama Darwin junto às demais crianças, enquanto corre a jogar pedras no gordo em sua busca pelo sucesso e por se adaptar, à medida que Keane pega um charuto de dentro de seu terno e o acende.
_ Essas crianças de hoje acham que é fácil ser o idiota padrão mesmo, só pode. _ então ele dá uma pausa, coloca o charuto em sua boca, dá uma baforada, e diz de modo rabugento a si mesmo _ E porra, que roupa escrota, meu!
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