Em uma sala, dois amigos se olhavam em um silêncio quase mortal.
O primeiro se encontrava confortavelmente deitado em um pufe, do modo mais espaçoso possível, em suas vestes coloridas, como aquelas hippies, psicodélicas, em que as cores logo saltam aos olhos.
Apesar de seu conforto aparente, ele se encontrava todo machucado, dizia ele que era devido a tantas batidas, mas em parte era também devido ao outro amigo que naquela sala se encontrava com ele.
Sabe como são esses amigos que fazem questão de ser sincero contigo o tempo todo, não?
Pois bem, algumas vezes os piores socos assumem formas de palavras, e era assim com esse segundo amigo, que lembrava sempre de tudo que o primeiro adoraria esquecer, inclusive, muitas vezes, usando disso para freá-lo em feições irritadas, o que dessa vez, em sua face, era preocupação o que demonstrava.
Também pudera, de fato seu amigo era meio maluco. Adorava ir com o vento e se jogar em tudo de cabeça. Apesar de que, quanto a essa preocupação, não era a primeira vez que sentia, e sabia que outros dias de preocupação ainda ocorreriam.
O silêncio então era quebrado pelo primeiro amigo, quando com um leve movimentar do dedo indicador, pondo-o em riste para chamar a atenção, começa a falar:
_ Sabe, estou cansado. _ Dizia o Coração, machucado de tantas batidas, com uma expressão de desconforto no rosto, o que contradizia com toda atitude que mostrava ao se vestir e se deitar daquela forma, olhando o teto, todo desconjuntado.
_ Então por que você continua com isso? Não tem lógica no que você faz. Sempre se deixando levar, de modos, que eu me arrisco até a chamar de inconsequente. _ Respondia o Cérebro, enquanto arrumava seus óculos, e se ajeitava em sua poltrona para ter aquela conversa que invariavelmente surgiria uma hora ou outra.
O Coração então respondia com um sorriso meio irônico nos lábios:
_ Qual é cara, você sabe que eu sou um artista! Eu ajo por inspiração. Se me dá vontade eu faço. E não me olhe como se não devesse, você sabe muito bem como eu sou! _ Respondia em tom um tanto ofendido ao Cérebro, mas sem expressar muitos movimentos, a não ser o de levantar a cabeça para encarar seu amigo.
O Cérebro, então bebericava um gole de café de sua canéca, enquanto repousava a outra mão em seu peito dando continuidade àquilo:
_ Me perdoe se fui rude, não foi minha intenção. Apenas uma ultima pregunta, se me permite, claro. E quanto a esse cansaço, não lhe fatiga se jogar tanto sem olhar para onde?
Então o Coração, esboçando um sorriso e um olhar sincero, responde indagando:
_ De que vale a vida, se vivemos sem nos sentir vivos?
O Cérebro demonstrando não haver uma resposta racional para aquela pergunta, de modo calmo se levanta, e em passos lentos caminha até uma janela e fica a vidrar o mundo, pensando na amplitude de tudo que conhece e do que há para conhecer.
Talvez o Coração não estivesse tão errado, pensava o Cérebro, mas, com armas em mãos, portadas de modo sorrateiras, ele preferia não arriscar, até por que, para além de janelas, ele sabia que tudo que atraísse o coração, sem pensar duas vezes, ele se jogaria, e seria bom estar preparado, enquanto que junto dele pudesse desfrutar ao máximo, nem que fosse para depois se machucar, passar um tempo em repouso, e ter esses papos, que, segundo ele, eram um puta porre... ops, quero dizer, entediantes.
“Ah, Cérebro, por que tão quadrado.” – Coração.
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