23/05/2013

Darwin - Adaptar é preciso, viver não.


Em um dia ensolarado, nada como poder brincar num parque, se divertir e fazer novos amigos, pensava senhor Keane em relação a Darwin, que era apenas uma criança de sete anos começando a compreender o mundo.

Porém, em um dia ensolarado, nada como tomar algumas cervejas geladas ao abrigo do sol, rodeado de mulheres e com dinheiro para gastar à vontade, pensava Keane em relação a si mesmo.

Já o banco de madeira em que ambos se sentavam, enquanto viam crianças correrem de um lado para o outro, apenas gostaria de voltar a ser árvore e poder receber a fresca brisa das manhãs, tendo pássaros a construir seus ninhos durante a tarde e durante a noite poder ter de volta aquela proximidade da lua e das estrelas.

Mas claro que bancos de madeira não pensam, o que permitia a Keane e Darwin que se sentassem nele confortavelmente, lado a lado, sem se preocupar com os sentimentos, ou com a possibilidade daquele banco ter algum plano além de ficar pelo parque de bobeira naquela tarde.

Dessa forma, como os dois se encontravam sem maiores pesos na consciência, o que restava a eles era curtir o parque e todos os seus atrativos, que era exatamente o que nenhum deles fazia.

Darwin se encontrava lendo um livro, que Keane nem fizera questão de saber qual era, uma vez que estava, em suas palavras, “emputecido” com o garoto, afinal, não bastava ser alguém imaginado por uma criança de sete anos, tinha que ser por uma criança que gostava de livros, não bebia, não conhecia os prazeres femininos e que tinha um péssimo gosto para roupas.

Keane, não apenas tinha esse nome típico irlandês, mas era também ruivo, baixo e se encontrava vestido quase inteiramente de verde, de modo que dava graças a ninguém poder vê-lo, pois, se o fizessem, certamente o chamariam de lepreshaun.

O garoto, alheio ao sentimento de seu (não muito) amigo imaginário, entre uma folha e outra, olhava às outras crianças brincando e esboçava um olhar que beirava a complacência por estarem perdendo tempo correndo, enquanto o mundo precisava ser salvo de uma infinidade de problemas.

Keane, retrucando o olhar do menino, sem meias palavras, diz:

_ Porra, velho! Tá de sacanagem comigo, né? _ uma pausa fora dada em sua fala, por uma bufada, e assim continuava _ Na moral, depois desse olhar seu, eu só vejo duas soluções para você. Ou você cresce rápido e começa a me apresentar mulheres, me leva a bares, aprende algo sobre moda e me torna, de fato, seu único amigo, ou você aprende a ser uma criança como as outras, fazendo amigos e nunca mais lendo.

O menino não esboça se sentir ofendido com tal comentário, mas, ainda assim, em um tom pesaroso, dá continuidade a conversa com o pequeno homem de verde:

_ Mas senhor Keane, uma criança como todas as outras, mesmo? _ diz Darwin enquanto se vira para aquelas crianças correndo em sua brincadeira ilógica.

_ É claro! Olha só aquele cara ali. _ diz o homenzinho apontando a um hippie a andar na rua vendendo seus artesanatos, enquanto cantarolava uma musica da década de sessenta, sem que ninguém o note, e sem que ele se sinta incomodado com tal fato. _ Você quer mesmo ser como ele? Ele está pelo menos 50 anos atrasado no tempo!

Estar atrasado amedrontava Darwin, afinal, como ser bem sucedido dessa forma? Talvez ele precisasse se adaptar, afinal de contas, se o “saber” o tornasse diferente de todos, ninguém o seguiria em seus pensamentos diferentes, e se fosse assim o seu futuro, como obteria sucesso?

Assim, um tanto contrariado, o menino dá de ombros, esboça um sorriso, deixa seu livro no banco (que por sua vez não esboça qualquer reação, sendo compreendido pelo menino e por senhor keane como estando tudo certo, afinal, ninguém liga para o sentimento de bancos de parque, o que chatearia o banco, caso ele tivesse algum tipo de sentimento)(Ah! Mas esse não era o caso) e corre gritando em direção até onde as outras crianças estavam naquele momento; um grande monte de pedra.

_ Pega o gordo! _ exclama Darwin junto às demais crianças, enquanto corre a jogar pedras no gordo em sua busca pelo sucesso e por se adaptar, à medida que Keane pega um charuto de dentro de seu terno e o acende.

_ Essas crianças de hoje acham que é fácil ser o idiota padrão mesmo, só pode. _ então ele dá uma pausa, coloca o charuto em sua boca, dá uma baforada, e diz de modo rabugento a si mesmo _ E porra, que roupa escrota, meu!

05/05/2013

C'est la Vie



Em uma sala, dois amigos se olhavam em um silêncio quase mortal.

O primeiro se encontrava confortavelmente deitado em um pufe, do modo mais espaçoso possível, em suas vestes coloridas, como aquelas hippies, psicodélicas, em que as cores logo saltam aos olhos.

Apesar de seu conforto aparente, ele se encontrava todo machucado, dizia ele que era devido a tantas batidas, mas em parte era também devido ao outro amigo que naquela sala se encontrava com ele.

Sabe como são esses amigos que fazem questão de ser sincero contigo o tempo todo, não?

Pois bem, algumas vezes os piores socos assumem formas de palavras, e era assim com esse segundo amigo, que lembrava sempre de tudo que o primeiro adoraria esquecer, inclusive, muitas vezes, usando disso para freá-lo em feições irritadas, o que dessa vez, em sua face, era preocupação o que demonstrava.

Também pudera, de fato seu amigo era meio maluco. Adorava ir com o vento e se jogar em tudo de cabeça. Apesar de que, quanto a essa preocupação, não era a primeira vez que sentia, e sabia que outros dias de preocupação ainda ocorreriam.

O silêncio então era quebrado pelo primeiro amigo, quando com um leve movimentar do dedo indicador, pondo-o em riste para chamar a atenção, começa a falar:

_ Sabe, estou cansado. _ Dizia o Coração, machucado de tantas batidas, com uma expressão de desconforto no rosto, o que contradizia com toda atitude que mostrava ao se vestir e se deitar daquela forma, olhando o teto, todo desconjuntado.

_ Então por que você continua com isso? Não tem lógica no que você faz. Sempre se deixando levar, de modos, que eu me arrisco até a chamar de inconsequente. _ Respondia o Cérebro, enquanto arrumava seus óculos, e se ajeitava em sua poltrona para ter aquela conversa que invariavelmente surgiria uma hora ou outra.

 O Coração então respondia com um sorriso meio irônico nos lábios:

_ Qual é cara, você sabe que eu sou um artista! Eu ajo por inspiração. Se me dá vontade eu faço. E não me olhe como se não devesse, você sabe muito bem como eu sou! _ Respondia em tom um tanto ofendido ao Cérebro, mas sem expressar muitos movimentos, a não ser o de levantar a cabeça para encarar seu amigo.

O Cérebro, então bebericava um gole de café de sua canéca, enquanto repousava a outra mão em seu peito dando continuidade àquilo:

_ Me perdoe se fui rude, não foi minha intenção. Apenas uma ultima pregunta, se me permite, claro. E quanto a esse cansaço, não lhe fatiga se jogar tanto sem olhar para onde?

Então o Coração, esboçando um sorriso e um olhar sincero, responde indagando:

_ De que vale a vida, se vivemos sem nos sentir vivos?

O Cérebro demonstrando não haver uma resposta racional para aquela pergunta, de modo calmo se levanta, e em passos lentos caminha até uma janela e fica a vidrar o mundo, pensando na amplitude de tudo que conhece e do que há para conhecer.

Talvez o Coração não estivesse tão errado, pensava o Cérebro, mas, com armas em mãos, portadas de modo sorrateiras, ele preferia não arriscar, até por que, para além de janelas, ele sabia que tudo que atraísse o coração, sem pensar duas vezes, ele se jogaria, e seria bom estar preparado, enquanto que junto dele pudesse desfrutar ao máximo, nem que fosse para depois se machucar, passar um tempo em repouso, e ter esses papos, que, segundo ele, eram um puta porre... ops, quero dizer, entediantes.

“Ah, Cérebro, por que tão quadrado.” – Coração.

“Ah, Coração, por que não compreende de uma vez.” – Cérebro.