05/05/2013

C'est la Vie



Em uma sala, dois amigos se olhavam em um silêncio quase mortal.

O primeiro se encontrava confortavelmente deitado em um pufe, do modo mais espaçoso possível, em suas vestes coloridas, como aquelas hippies, psicodélicas, em que as cores logo saltam aos olhos.

Apesar de seu conforto aparente, ele se encontrava todo machucado, dizia ele que era devido a tantas batidas, mas em parte era também devido ao outro amigo que naquela sala se encontrava com ele.

Sabe como são esses amigos que fazem questão de ser sincero contigo o tempo todo, não?

Pois bem, algumas vezes os piores socos assumem formas de palavras, e era assim com esse segundo amigo, que lembrava sempre de tudo que o primeiro adoraria esquecer, inclusive, muitas vezes, usando disso para freá-lo em feições irritadas, o que dessa vez, em sua face, era preocupação o que demonstrava.

Também pudera, de fato seu amigo era meio maluco. Adorava ir com o vento e se jogar em tudo de cabeça. Apesar de que, quanto a essa preocupação, não era a primeira vez que sentia, e sabia que outros dias de preocupação ainda ocorreriam.

O silêncio então era quebrado pelo primeiro amigo, quando com um leve movimentar do dedo indicador, pondo-o em riste para chamar a atenção, começa a falar:

_ Sabe, estou cansado. _ Dizia o Coração, machucado de tantas batidas, com uma expressão de desconforto no rosto, o que contradizia com toda atitude que mostrava ao se vestir e se deitar daquela forma, olhando o teto, todo desconjuntado.

_ Então por que você continua com isso? Não tem lógica no que você faz. Sempre se deixando levar, de modos, que eu me arrisco até a chamar de inconsequente. _ Respondia o Cérebro, enquanto arrumava seus óculos, e se ajeitava em sua poltrona para ter aquela conversa que invariavelmente surgiria uma hora ou outra.

 O Coração então respondia com um sorriso meio irônico nos lábios:

_ Qual é cara, você sabe que eu sou um artista! Eu ajo por inspiração. Se me dá vontade eu faço. E não me olhe como se não devesse, você sabe muito bem como eu sou! _ Respondia em tom um tanto ofendido ao Cérebro, mas sem expressar muitos movimentos, a não ser o de levantar a cabeça para encarar seu amigo.

O Cérebro, então bebericava um gole de café de sua canéca, enquanto repousava a outra mão em seu peito dando continuidade àquilo:

_ Me perdoe se fui rude, não foi minha intenção. Apenas uma ultima pregunta, se me permite, claro. E quanto a esse cansaço, não lhe fatiga se jogar tanto sem olhar para onde?

Então o Coração, esboçando um sorriso e um olhar sincero, responde indagando:

_ De que vale a vida, se vivemos sem nos sentir vivos?

O Cérebro demonstrando não haver uma resposta racional para aquela pergunta, de modo calmo se levanta, e em passos lentos caminha até uma janela e fica a vidrar o mundo, pensando na amplitude de tudo que conhece e do que há para conhecer.

Talvez o Coração não estivesse tão errado, pensava o Cérebro, mas, com armas em mãos, portadas de modo sorrateiras, ele preferia não arriscar, até por que, para além de janelas, ele sabia que tudo que atraísse o coração, sem pensar duas vezes, ele se jogaria, e seria bom estar preparado, enquanto que junto dele pudesse desfrutar ao máximo, nem que fosse para depois se machucar, passar um tempo em repouso, e ter esses papos, que, segundo ele, eram um puta porre... ops, quero dizer, entediantes.

“Ah, Cérebro, por que tão quadrado.” – Coração.

“Ah, Coração, por que não compreende de uma vez.” – Cérebro.

28/06/2012

Impotência

Em meio a mais do nada,
tudo vem me assombrar
ao alcance de uma mão
que em nada deseja tocar.

Tudo está perfeito
em seu local de dever,
ainda que de modo confuso,
imperfeito como deve ser.

Afinal, essa é a ordem,
o avesso do que se deseseja.
Mas uma ordem deve ser obedecida,
então que simplesmente obediente eu seja.

11/03/2012

TEXTO QUE EU GOSTARIA DE TER ESCRITO

(Augusto dos Anjos, Eu e outras poesias)

Saudade

Hoje que a mágoa me apunhala o seio,
E o coração me rasga atroz, imensa,
Eu a bendigo da descrença em meio
Porque eu hoje só vivo da descrença.

À noite quando em profunda soledade
Minh'alma se recolhe tristemente,
Pra iluminar-me a alma dsescontente,
Se acende o círio triste da saudade.

E assim afeito às mágoas e ao tormento
E à dor e ao sofrimento eterno afeito
Para dar vida à dor e ao sofrimento

Da saudade na campa enegrecido
Guardo lembranças que me sangram o peito,
Mas que no entanto me alimenta a vida.

21/02/2012

Em Frente

O céu estava se fechando para chuva enquanto eu caminhava rumo a... Bem, não consigo me lembrar ao certo para onde eu caminhava, mas eu estava ao lado de uma estrada, disso eu sabia, aparentemente sem direção, ou ao menos, para uma direção na qual minha memória teimava em não me contar.

A paisagem ao redor da estrada era composta por plantações de trigo, formando um campo dourado conforme feixes de luz do sol escapavam por entre as nuvens carregadas e tocavam suavemente seus grãos, formando assim uma beleza paradoxal.

Dourado à altura dos olhos, e escuro por todo o resto, com apenas uma linha tênue os separando ao longe no horizonte, para onde me dirigia sem ter idéia do que eu iria encontrar lá.

Do início do caminho que percorri até alcançar tal distância, de pouca coisa me lembrava e isso me fazia saber apenas o que me era momentâneo; meus pés doíam, minha respiração era ofegante, tudo apontava para o fato de que estava naquela estrada já a algum tempo, mas nada apontava meu começo, ou então, qual seria o meu fim.

Cansado, me sentei ao pé de uma arvore carregada de folhas que se encontrava ao lado da via, e me abriguei em baixo dela, até por que, o céu começava a esbravejar e desferir seus golpes em forma de chicotadas de luz contra o solo, mas não aquele tipo de luz anterior que transformava tudo em dourado, dessa vez era uma luz punitiva.

Eu não tinha para onde ir, aquela arvore seria meu guarda e minha companhia enquanto o céu estivesse desabando, apesar de saber que ela não era a melhor das companhias neste momento, afinal, quanto mais ao alto se dirige, maior é a atração de tudo quanto é vontade de destruição, e o céu nem chorava em sinal de remorso enquanto demonstrava sua violência.

Assim permaneci, temendo pela minha pequenes diante de tal fúria que a arvore atraía, mas, ao mesmo tempo, boquiaberto com aquela beleza raivosa que cortava o céu e proporcionava rápidos momentos onde tudo se tornava claro e de uma visibilidade incrível, ainda que fosse seguido de longos momentos escuros e que de belo tinha muito pouco.

A ira altiva frente à minha falta de visão, o não saber quando será o próximo urro do céu com seu chicote de luz em mãos, a presença de tal árvore e a necessidade de seguir em frente, tudo estava acontecendo, e eu nem sabia do por que estava ali, mas apenas estava.

_ Não sou tão alto quanto ti, e nem tenho raízes tão bem fixadas ao chão que me sustente suficientemente para agüentar com tanta imponência, como a sua, toda essa ânsia destrutiva que visa invejosamente lhe destruir, por isso creio que tenho que partir. Se um dia crescer ao seu tamanho, volto, mas não mais me abrigando sob suas forças, dessa vez como igual. _ digo à árvore, seguindo em meu rumo desconhecido com a tempestade ainda caindo, afinal, em uma estrada, se segue ou se para.

10/10/2011

TEXTO QUE EU GOSTARIA DE TER ESCRITO

(Douglas Adams, introdução do livro Guia do Mochileiro das Galáxias)

Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da borda ocidental desta galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.

Girando em torno deste sol, a uma distancia de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado, absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande idéia.

Este planeta tem – ou melhor tinha – o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel com números impressos, o que é curioso já que no geral não eram tais pedaços que de papel que se sentiam infelizes.

E assim o problema caminhava sem solução. Muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.

Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das arvores. Alguns diziam que até mesmo subir nas arvores tinha sido uma péssima idéia, e que ninguém jamais deveria te saído do mar.

E então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha em uma pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, iria funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.

Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar a sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a idéia perdeu-se para todo o sempre.

Esta não é a história dessa garota.

É a história daquela catástrofe terrível e idiota, e de algumas de suas conseqüências.

É também a história de um livro chamado “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, um livro que não é da Terra, jamais foi publicado na Terra e, até o dia em que ocorreu a terrível catástrofe, nenhum terráqueo jamais tinha visto ou sequer ouvido falar dele.

Apesar disso é um livro realmente extraordinário.

Na verdade, foi o mais extraordinário dos livros já publicados pelas grandes editoras de Ursa Menor, editora a qual nenhum terráqueo jamais ouvira falar.

O livro é não apenas uma obra extraordinária, como também um tremendo best-seller, mais popular que a “Enciclopédia Celestial do Lar”, mais vendido do que “Mais Ciquenta e Três Coisas para se Fazer em Gravidade Zero”, e mais polêmico que a colossal trilogia filosófica de Oolon Colluphid, “Onde Deus Errou”, “Mais Alguns Grandes Erros de Deus” e “Quem É Esse tal de Deus Afinal?”.

Em muitas das civilizações mais tranqüilas da borda oriental da galáxia, “O Guia do Mochileiro das Galáxias” já substituiu a grande “Enciclopédia Galáctica” como repositório padrão de todo o conhecimento e sabedoria, pois ainda que contenha muitas omissões e textos apócrifos, ou pelo menos terrivelmente incorretos, ele é superior à obra mais antiga e mais prosaica em dois aspectos importantes.

Em primeiro lugar, é ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz na capa, em letras garrafais e amigáveis, a frase “NÃO ENTRE EM PANICO”.

Mas a história daquela quinta feira terrível e idiota, a história de suas extraordinárias conseqüências, a história das interligações inextricáveis entre essas conseqüências e este livro extraordinário, tudo isso teve um começo muito simples.

Começou com uma casa.

18/09/2011

Happy

_ Hei, Láza, me responde aí. Você faria, ou não faria sexo com uma extraterrestre? _ pergunto tentando quebrar a monotonia de mais uma noite chata de trabalho.

Lazaroni, ou Láza, como eu costumo chamá-lo, apenas me olha com seu rosto fechado e sisudo de sempre.

De qualquer forma, eu não esperava outra reação dele.

_ Você sabe que não entender piadas é sinal de velhice, não sabe? _ digo com um sorriso largo na cara, apenas para provocá-lo, pois sabia que ele não encarara muito bem os 40 anos recém ganhos da fada da idade.

_ Happy, faz o seguinte, se concentre no seu trabalho! _ responde ele rispidamente para mim.

_ Ok, Ok._ digo sorrindo para ele, enquanto volto minha atenção ao tráfego.

O que fazíamos aqui, geralmente, era ficar dentro da nossa viatura (acredite, nós somos policiais e concordo plenamente contigo, não se fazem mais policiais como antigamente, hahaha) em uma avenida próxima à faculdade local, até que o movimento começasse a aumentar que era quando o nosso trabalho realmente começava.

Nossa “guarda” aqui era devido, em grande parte, à existência de barzinhos na proximidade da universidade. Bem, todo mundo sabe quem são os maiores concorrentes das universidades, não sabe?

Pois bem, eu e o Láza, fomos designados a fazer a “blitz” hoje, plena sexta feira, apenas para pegarmos ou menores de idade dirigindo sem habilitação, ou motoristas embriagados ao volante.

Agora eram dez horas da noite e o movimento ainda não estava em seu ápice, como viria a estar daqui à meia hora, então continuaríamos no carro por mais meia hora para finalmente termos um pouco de ação.

Para ser sincero, eu estou brincando, não teríamos ação nenhuma, teríamos sim era mais uma hora de chatice. Ficaríamos em pé escorados no carro, pararíamos uma ou outra pessoa e pediríamos para ver a carteira de habilitação.

Caso houvesse indícios de que o motorista tivesse bebido, pediríamos para fazer o teste do bafômetro. E ainda, mas não menos divertido, ouviríamos muitas reclamações por estarmos apenas cumprindo com o nosso trabalho.

Somente após tudo isso, poderíamos ir beber uma cerveja sem estar em serviço e tranqüilo de toda essa molecada chata de universidade.

2 minutos e 3 bocejos depois.

_ Sabe Happy, acredito que sim... _ diz Láza de forma séria, com sua voz baixa, mas confiante, apesar de sua pausa prolongada ao final da sentença, não dando muita ênfase se tinha acabado de afirmar algo ou se iria continuar com a afirmação acrescentando algo a mais.

_ Desculpa Láza, mas do que você está falando? _ respondo com o mesmo sorriso largo de antes, como se não tivesse entendendo do que se trata aquele “acredito que sim”, quando na verdade já sabia o que viria por aí.

Láza respira fundo, como se não devesse dar prosseguimento nessa conversa, mas continua a afirmação inacabada de antes.

_ Eu faria sexo com uma extraterrestre._ responde ele olhando para mim com cara de mal, como se dissesse “se fizer qualquer gracinha com o que eu disse morre.”.

É uma pena que o meu sentimento de medo não seja tão forte quanto a velocidade de minha língua.

_ Cara, você é nojento! _ digo rindo com as duas mãos no rosto, de cabeça baixa, para não rir diretamente na cara do Láza.

“Chamando oficial Barros e oficial Lazaroni.”

Ao ouvir o rádio nos chamando contenho meu riso e o atendo.

_ Oficial Barros, na escuta. _ a voz não sai extamente tão séria quanto desejava.

“Houve um assassinato no Circo Monte Videl e vocês foram designados para ir até lá investigar. Estaremos mandando reforços caso precisem.”

Então apenas olho para Lazaroni e seu olhar, que já era de bravo antes da minha brincadeira, não melhora em nada com a missão que acabamos de receber.

_ Eu sei. Ou aquilo vai estar muito vazio e só veremos corpos, ou estará uma completa anarquia de gente correndo da guerra. De qualquer modo você sabe que temos de ir. _ diz ele com seu tom sério e preocupado, sabendo de minha apreensão em ir até lá.

Já que estávamos sentados dentro do carro, tudo que tive que fazer foi girar a chave na ignição e dar a partida no carro.

Parece que daqui até o circo não haveria mais espaço nem para minhas piadas, nem para Happy. A partir de agora teria que ser oficial Barros no controle, sem gracinhas.

Se bem que preferiria continuar por aqui e lidar com esses jovens...

10/09/2011

Folhas ao caos

Inútil!

Uma folha branca sempre será uma folha branca.

Pode ser que no decorrer do tempo novos tons venham a esconder o vazio alí contido. Um sorriso amarelo para falta de conteúdo. Um tom avermelhado para vergonhas. Mas o fato é que a essência de uma folha branca, sempre será o branco.

OK, até aceito que haja exceções. Até aceito que haja aquelas folhas que tenham se dedicado a esconder o seu vazio por detrás de conteúdo, mas a que custo?

Seria menos branca uma folha inteira dedicada a conteúdo?

“Eu sou útil!” _ Diz a folha de conteúdo.

“Que inútil!” _ Eu respondo àquela folha.

Alguns poucos apenas. Só entre o caos.

Por acaso o caos tem ouvidos? É?! Mesmo?! Sei...

O caos apenas se diverte nele mesmo, achando que tudo está na mais perfeita ordem, afinal, aquela é a ordem inicial dele mesmo. Para eles, os tons que darão à suas folhas brancas, pouco importa, desde que se entorpeçam com um chá de foda-se, tudo certo.

Eu não os culpo, nem os que se escondem atrás de conteúdo, nem aqueles que vivem em meio ao caos, afinal, nunca foi dito com todas as letras a utilidade de uma folha.

“Talvez uma folha não seja branca de fato. Talvez sejamos apenas míopes demais para ver as coisas. Massa, não?!” _ responde algum metido a sabichão dentro de uma sala de aula, com sua mão ainda levantada para se fazer notar.

De fato somos míopes de mais para ver qualquer coisa, e igualmente de fato, talvez não seja branca uma folha. Mas “talvez” está longe de ser “certeza”.

Uma folha branca sempre será uma folha branca largada a improvisos, a interpretações próprias ou de outras, no decorrer de uma caneta no tempo.

Então, como preenche-la?

Que inútil!