22/11/2016

Sem lamento

Assumindo que estava vindo a sumir,
Ele se despediu de toda saudade,
Deixando para trás, naquela tarde,
Sua ultima lua no céu a subir.

Ao alcance da mão jazeu o trago.
Ironia do destino, jazer ao fim.
Talvez isso fosse o melhor, assim
Findaria o ultimo gole de estrago.

Brindou, o conhaque às mãos, partiu
Em seu ultimo gole, se despediu:
_ Que tudo o mais agora seja passado!

E assim passou seu tempo
Sem que se ouvisse qualquer lamento.
Como tudo lhe veio, tudo lhe foi sublimado.

13/07/2016

Doce

Deixando eu ser aquele
Seu ele, num elo
Do belo futuro,
À campa no escuro,
Deu-me a mão faceira
À beira do salto
Incauto, onde junto
Passei a rir do mundo.

29/06/2016

Incerto


Todo dia o sol se põe e o horizonte não chega
A ser assim, cavalheiro, um domador de estrelas,
Que foge em rumo ao escuro. Ele sabe
Que no fim, no futuro, é ele quem traz,

Diante do novo, as incerteza do mundo.
No escuro, a lua, guia com o seu sorriso noturno
Ao caminho incerto, entre o raso e o fundo,
Por trilhas que levam, mas nunca a te obrigar

Se privar em vendas para não avistar
As mensagens secretas na brisa do ar,
Em papeis de promessas frágeis, pode-se quebrar.
Contra a correnteza, não pode se arriscar

Se jogar de cabeça, sem nem saber nadar
Em meio a águas rasas, pode se afogar
Sem ajuda de mantras, rezas, ou de salva vidas
No fim o caminho, cabe a nós o andar.

15/06/2016

Ira

A fúria, o ferro em fogo, abrasa
E fere afoito, feito farpa!
A pele empola o peito e racha,
De queixa deixa cheia e mata.

Um soco tosco, enroscou fundo
No coice feito foice. Ao mundo,
Urro num estupro rubro mudo.
É meu, não teu. Meu eu imundo.

20/05/2016

Crástino

Sofri do futuro que o hoje me guarda
Quando trouxe o fim à metade.
Morrendo um sonho por dia, e em cada
Sonho desfeito eu lia "maldade".

Natimortos presentes foram me dados
No entrevero banal de agourentas mãos,
Não reparando, por hipermetropia do atos,
A sombra daquele titeriteiro cordão

Movendo para longe aquilo que deveria
No hoje ter feito, mas que não faria.
Mais uma sombra de culpa a alocar.

Engraçado é o destino, a vida, o ocaso,
Há sempre algo para todos os casos,
Quando somente um eu poderia ajudar.

27/10/2015

Baltazar e Eu


(...)
Em outra vida, quando ainda havia um banco à beira de um penhasco, o Velho lera que o tempo curava tudo, e por muito tempo acreditou nisso.
Não havia necessidade que o tempo, em mais ou menos hora, não curasse.
Bastava esperar que ele passasse como geralmente passava, lentamente de dia, e rápido à noite, que em meio ao durante lá se ia qualquer mal.
Às vezes, o tempo tardava o sono, deixando certas dores latejando, mas até nesses momentos ele dava uma passada, nem que fosse com curas paliativas.
O tempo tinha seu próprio tempo de agir, e tímido, odiava que fosse vigiado, tardando suas ações. Agora, se esquecido, voava o mais depressa que podia.
Os três caminhantes estavam à mercê dele, que de tempos em tempos lhes davam trégua, e fazia tudo passar depressa naquela caminhada desértica. Mas de tempos em tempos trazia aos três longos momentos de dor.
Nesses longos momentos eles viam o longe, mas não o futuro. Já naqueles momentos que passavam depressa, eles enxergavam o futuro, mas ele se encontrava tão próximo, que nunca se via o longe.
 Tudo era uma questão do tempo passar, mas nenhum dos três estavam dispostos a esperar, então andaram à frente dele, tentando deixar tudo para trás, mas nada encontraram antes do tempo, nem uma cura, nem um local a se chamar de lar novamente.
 Dessa forma, o tempo não pôde ajudar àqueles que não esperaram por ele.

20/07/2015

Acordar



Sem capitão,
Meu barco a vela revela
Que em viagem, ruma sem quem oriente
Ao ocidente, e nem por acidente
Vê novas terras.

Enterras
Tua vida, que uma nova forma de obra revida.
Que viver já não é preciso
Com apenas uma onda do mar
A pular.

E amar
A forma com que cora. E decora
Todos os meandros que esteve e, agora,
Embebido do ontem e do hoje
Possa enfim recordar.

E acordar!

15/04/2015

Baltazar e Eu

O sol não se punha, e o dia não era bonito, mas como estava longe de ser feio, eu não ligava, e continuava sentado em meu banco, à beira do precipício, lendo histórias há muito tempo escritas por mim mesmo.
Eram histórias de outra vida, vivida por outros eu, em outros tempos. Eram histórias que às vezes me constrangia, às vezes me deixava feliz, às vezes me deixava com sensação de que nada acontecia, outras vezes traziam a sensação de que nada aconteceu.
É como li uma vez, em um lugar que estive numa outra vida, enquanto voltava de uma bebedeira com velhos amigos, e parava para urinar em um banheiro publico. As letras eram grandes e belas na porta de tal banheiro, e mesmo que não lembre o que elas diziam, era bonito, profundo, e tinha a ver com o que estava dizendo, pode acreditar.
Uma pena as histórias lidas por mim no topo do precipício, não acompanharem tal beleza e profundidade. Mas fazer o que, se nem todas as histórias vividas são tão belas quanto certas frases de portas de banheiro?
Mas mesmo assim eu continuava minhas leituras, afinal, solidão é muito boa para histórias ruins, talvez tão boas quanto veneno a um suicida, crianças a um pedófilo, ou café com leite.
E do mais, se acaso cansasse de ficar sozinho, eu voltava para casa, para ser recepcionado por meu cão chamado Baltazar. Apesar do contrário ser bem mais frequente.
Eu costumava ler ao longo do dia inteiro, quando ao longe, por entre as arvores e os arbustos, vinha Baltazar, em sua pelugem escura e seus passos lentos, cansados, mas que sempre chegavam onde queriam ir.
Já eu, me mexia o mínimo possível, que era para evitar a fadiga. Talvez por isso Baltazar e eu nos déssemos tão bem; dois lentos companheiros, em plena velhice, a curtir o nada.
Há uma beleza no nada, sabe? A beleza de que no nada há tudo a se fazer, e ver.
E assim por mil vidas ficamos, sem nos cansarmos das infinitas possibilidades a nossa frente, enquanto esperávamos sentados.
Mas sabe como é, a sorte nunca dura para sempre, e uma hora o vento dá um empurrãozinho e tudo a sua volta começa a andar, e você não pode ficar parado. Não senhor. Ou senhora. Sem preconceitos. Não podemos ficar parados quando tudo se movimenta.
Em rota de colisão a uma movimentada turba de elefantes, pelo menos dance um solitário cha cha cha, e alguns elefantes dançarão contigo.

E é sobre cha cha cha que eu pretendo falar daqui para frente. Mas pode ser que eu mude de ideia no meio do caminho, afinal, a vida é muito longa para se viver lendo em apenas um banco.

11/08/2013

Carolina no fim do mundo.

O mundo desmoronava, mas Carolina não se preocupava do alto de seu prédio onde tudo podia ver. Chovia sangue, no entanto, Carolina se divertia nas poças, pulando com ambos os pés dentro de uma aqui, outra ali, e assim cantava e ria para o mundo a acabar.

Ouvia gritos de socorro, mas isso não a preocupava mais. Quando havia ainda tempo de sobra, ela tinha feito tudo o que estava a seu alcance. Agora, com segundos contados para o fim do mundo, ela sabia que o que lhe restava era somente a despedida.

Quando então, um barulho estrondoso se fez ouvir de algum lugar próximo a ela. Isso a deixou assustada por um instante ínfimo, ainda mais quando o chão sob os seus pés vibraram, a fazendo sentir como se houvesse um amanhã. Não haveria.

Como ela estava no ponto mais alto da cidade, não ligou por muito tempo, apenas continuou a admirar todas aquelas chamas, toda aquela cor vermelha, e o som ambiente que antes era de carros e buzinas, e que logo havia dado lugar a gritos e barulhos de explosão, de potência ensurdecedora, gradativamente, foram diminuindo conforme o fim se colocava mais próximo.

Ao seu lado, uma sombra surgia, e dela uma voz masculina se fazia ouvir:

_ O que faz aqui em cima sozinha, toda molhada com essa chuva? _ dizia em tom de preocupação aquela voz.

_ Não é bonito quando o fim dá as caras? _ dizia Carolina em meio a um suspiro _ Quero dizer, quando realmente não há mais o que se fazer. Acho que só resta admirar, né? Lindo...

O homem parecia tentar entender, olhando para todos os lados e só vendo destruição. Então, caminhando até o lado da menina, que estava de olhos fechados, respirando fundo, como que realmente vivendo aquilo, ele se coloca sentado junto a ela procurando a beleza que a menina tentava lhe mostrar.

Não era a intenção dele de acabar com aquele momento que a menina vivenciava, então ficou em silêncio, decidido em esconder seu medo do futuro. A ele temia até olhar para baixo e se sentir tentado a pular, e o céu, bem, com todos aqueles chicotes de luz, e toda aquela vermelhidão a cair, não lhe era o local mais convidativo a estar olhando agora.

Ele se sentia desconfortável com tudo aquilo, o fim não era seu plano. Em sua fuga interior, nesse momento, ele pensava que se ele estivesse vivenciando realmente o fim, seria  melhor ter remarcado o dentista, afinal, seria péssimo a sua imagem se devido à sua ausência em um compromisso desses ligado à área de saúde, ele fosse barrado no portão devido a cárie.  Imagina o que diriam dele no céu? Seria vergonhoso.

Os dois permaneceram em silêncio ainda mais um tempo, até que a menina se levanta e caminha, em direção oposta ao local onde, sentada, vivia aquilo. O homem, ainda tentando se acalmar, a acompanha com o olhar e pergunta:

_ Para onde vai? Por acaso cansou da sua beleza? _ seu tom de voz soou meio irônico, mas a menina não ligou, e sem se virar a ele, lhe respondeu.

_ De modo algum. Só quero um novo ângulo.

_ Mas de que? _ o homem por mais que tentasse acompanhar o pensamento da menina, não o alcançava. O que lhe vinha à cabeça era “que porra essa menina tá falando?”.

Em resposta, um riso meigo escapa à menina, que soa abafado por um trovão, mas ela não liga pelo “timing” errado vindo do céu, e assim continua.

_ Fala aí, céu ou chão? _sua voz é extremamente amigável.

Sem entender, e sem paciência para aquela conversa sem sentido, ele responde:

_ Céu ou chão. _ sua voz sai em um tom monótono, como se não se importasse com aquela conversa.

A resposta gera um riso alto da menina, e dessa vez o céu não a interrompe. Ela ainda era jovem, possuía por volta de dezenove anos, e sua voz meiga fazia lembrar a de uma menina, e aquele riso, lhe servia como se ainda houvesse coisas que lhe poderia surpreender. Não havia mais tempo.

O barulho ambiente cada vez se colocava mais baixo, talvez por que o fim se aproximava ainda mais. Ambos sabiam. Tremores e rachaduras se faziam sentir, e ver, por entre as ruas da cidade. Veios de lava surgiam ao chão, concedendo do alto do prédio a visão de rios de luz de beleza única.

_ Sabe, talvez o céu nunca tenha tido tanta inveja da luz da terra. _dizia ela, em meio a um sorriso, perdida na visão que ia ao alcance do olhar. _ Mas quanto a minha pergunta, eu quis dizer que hoje temos o privilégio de morrer como quisermos... _ antes que completasse o pensamento, o homem lhe interrompe em um tom ansioso.

_ Como quisermos? Bem, que tal amanhã? Tenho dentista sabe.

Outro riso alto a menina deixa escapar. E então continua.

_ Eu quero dizer como algo grande ou pequeno.

_ O suficiente para permanecer vivo... essa opção, digo... acho que é a que melhor combina comigo. Qualquer outra não me faria muito bem.

_ Bobo. _ Ela parecia estar se divertindo com o nervosismo de seu amigo. _ Olha o chão. Daqui você pode ter o poder de moldar a realidade, apenas esticando uma mão e apagando uma visão, sendo grande num mundo pequeno. No entanto, se você olhar á grandeza do céu, será ele quem irá te moldar, e quem sabe até te apagar, diante de sua pequena existência diante de tudo, E então céu ou chão?

Ele passa a compreender o ponto de vista da menina, mas seu desejo é de não ter que escolher.

Um tremor, dessa vez muito forte sacode as estruturas do prédio. A menina vinha esperando por esse momento. Ela passa a cantar e girar olhando ao céu, de braços abertos, como que aceitando o infinito e a si mesma.

_ Sabe, eu não te conheço. Mal vi o seu rosto. Não sei seu nome. Mas acho que te amo. _ Diz a menina em tom amigável.

_ Claro, por que não. _ A vida havia fugido à voz do homem. Não havia esperança. Lágrimas saia de seus olhos, e de seu corpo apenas o tremor de medo, sentado à beira do prédio enxergando finalmente a beleza naquele chão luminoso.

_ Espero te ver numa próxima, só queria que soubesse que foi um prazer.

_ Bem, talvez tenha sido igualmente. _respondia ele se deixando levar, enquanto ambos focavam aquilo que escolhera para ser o modo de encarar o fim, ela o alto, ele o chão.

23/05/2013

Darwin - Adaptar é preciso, viver não.


Em um dia ensolarado, nada como poder brincar num parque, se divertir e fazer novos amigos, pensava senhor Keane em relação a Darwin, que era apenas uma criança de sete anos começando a compreender o mundo.

Porém, em um dia ensolarado, nada como tomar algumas cervejas geladas ao abrigo do sol, rodeado de mulheres e com dinheiro para gastar à vontade, pensava Keane em relação a si mesmo.

Já o banco de madeira em que ambos se sentavam, enquanto viam crianças correrem de um lado para o outro, apenas gostaria de voltar a ser árvore e poder receber a fresca brisa das manhãs, tendo pássaros a construir seus ninhos durante a tarde e durante a noite poder ter de volta aquela proximidade da lua e das estrelas.

Mas claro que bancos de madeira não pensam, o que permitia a Keane e Darwin que se sentassem nele confortavelmente, lado a lado, sem se preocupar com os sentimentos, ou com a possibilidade daquele banco ter algum plano além de ficar pelo parque de bobeira naquela tarde.

Dessa forma, como os dois se encontravam sem maiores pesos na consciência, o que restava a eles era curtir o parque e todos os seus atrativos, que era exatamente o que nenhum deles fazia.

Darwin se encontrava lendo um livro, que Keane nem fizera questão de saber qual era, uma vez que estava, em suas palavras, “emputecido” com o garoto, afinal, não bastava ser alguém imaginado por uma criança de sete anos, tinha que ser por uma criança que gostava de livros, não bebia, não conhecia os prazeres femininos e que tinha um péssimo gosto para roupas.

Keane, não apenas tinha esse nome típico irlandês, mas era também ruivo, baixo e se encontrava vestido quase inteiramente de verde, de modo que dava graças a ninguém poder vê-lo, pois, se o fizessem, certamente o chamariam de lepreshaun.

O garoto, alheio ao sentimento de seu (não muito) amigo imaginário, entre uma folha e outra, olhava às outras crianças brincando e esboçava um olhar que beirava a complacência por estarem perdendo tempo correndo, enquanto o mundo precisava ser salvo de uma infinidade de problemas.

Keane, retrucando o olhar do menino, sem meias palavras, diz:

_ Porra, velho! Tá de sacanagem comigo, né? _ uma pausa fora dada em sua fala, por uma bufada, e assim continuava _ Na moral, depois desse olhar seu, eu só vejo duas soluções para você. Ou você cresce rápido e começa a me apresentar mulheres, me leva a bares, aprende algo sobre moda e me torna, de fato, seu único amigo, ou você aprende a ser uma criança como as outras, fazendo amigos e nunca mais lendo.

O menino não esboça se sentir ofendido com tal comentário, mas, ainda assim, em um tom pesaroso, dá continuidade a conversa com o pequeno homem de verde:

_ Mas senhor Keane, uma criança como todas as outras, mesmo? _ diz Darwin enquanto se vira para aquelas crianças correndo em sua brincadeira ilógica.

_ É claro! Olha só aquele cara ali. _ diz o homenzinho apontando a um hippie a andar na rua vendendo seus artesanatos, enquanto cantarolava uma musica da década de sessenta, sem que ninguém o note, e sem que ele se sinta incomodado com tal fato. _ Você quer mesmo ser como ele? Ele está pelo menos 50 anos atrasado no tempo!

Estar atrasado amedrontava Darwin, afinal, como ser bem sucedido dessa forma? Talvez ele precisasse se adaptar, afinal de contas, se o “saber” o tornasse diferente de todos, ninguém o seguiria em seus pensamentos diferentes, e se fosse assim o seu futuro, como obteria sucesso?

Assim, um tanto contrariado, o menino dá de ombros, esboça um sorriso, deixa seu livro no banco (que por sua vez não esboça qualquer reação, sendo compreendido pelo menino e por senhor keane como estando tudo certo, afinal, ninguém liga para o sentimento de bancos de parque, o que chatearia o banco, caso ele tivesse algum tipo de sentimento)(Ah! Mas esse não era o caso) e corre gritando em direção até onde as outras crianças estavam naquele momento; um grande monte de pedra.

_ Pega o gordo! _ exclama Darwin junto às demais crianças, enquanto corre a jogar pedras no gordo em sua busca pelo sucesso e por se adaptar, à medida que Keane pega um charuto de dentro de seu terno e o acende.

_ Essas crianças de hoje acham que é fácil ser o idiota padrão mesmo, só pode. _ então ele dá uma pausa, coloca o charuto em sua boca, dá uma baforada, e diz de modo rabugento a si mesmo _ E porra, que roupa escrota, meu!